Composição pictórica – Formato Rectangular e Formato Quadrado

FORMATOS: RECTÂNGULO X QUADRADO

por: Helder Vieira

Modernamente, é usual a pintura conter-se numa superfície com forma, em regra, rectangular, quadrada, oval ou circular.

Pondo de lado estas duas últimas, por mais decorativas e menos utilizadas no campo das artes plásticas, particularmente na pintura de paisagem, relevam, para o que nos ocupa neste pequeno escrito, as formas rectangulares e quadradas.

Tradicionalmente, os suportes da pintura são rectangulares, mais ou menos panorâmicos, na horizontal, ou, quando na vertical, no chamado formato de retrato.

Os grandes mestres do passado ignoravam, em regra, o formato quadrado, optando pelo rectângulo. No entanto, por exemplo, Edgar Degas usou-o no seu retrato de Edmond Duranty (Burrell collection, Glasgow).

Degas, Retrato de Edmond Duranty
Edgar Degas, Retrato de Edmond Duranty (Pastel e Têmpera sobre Tela, 1879)

O Formato Rectangular

Várias são as razões da opção pela forma rectangular. Desde logo, é uma forma versátil, flexível, na qual é possível alcançar facilmente uma composição equilibrada. Na verdade, é um formato que se adequa ao nosso campo visual de percepção, relacionado com a horizontalidade da superfície terrestre. Quando usado na vertical, diz-se ser um formato de retrato, na medida em que se relaciona com a forma alongada da cabeça e do tronco.

Mas há ainda um outro motivo pelo qual o rectângulo é tão agradável, que é a possibilidade de estabelecer uma relação segundo o valor de Phi ou Fi (razão de Phídias), representado pela letra grega Φ. Assim,  Φ= 1,618, ou seja (1 + √5)/2=1,618…) .

Ao longo de milénios, Φ representa uma relação mística, mas na verdade é apenas a descoberta de um fenómeno que ocorre na natureza e que determina que, na divisão de um segmento segundo a chamada secção de ouro, extrema razão ou divina secção ou proporção, a parte maior está para o todo como a parte menor está para a parte maior.

Podendo tornar-se complexa a matéria, importa apenas reter, para a nossa pequena análise, que o rectângulo ideal, segundo a proporção de ouro, pode ser encontrado, a partir do quadrado, assim:

Razão de Phideas
Razão de Phideas

De modo mais grosseiro (ou seja, sem a precisão geométrica representado por Φ) uma boa composição, equilibrada e esteticamente agradável pode ser alcançada com a regras dos terços (o que não representa um valor absoluto, regra ou dever. Não nos esqueçamos que, nada de novo parecendo haver debaixo do sol, é pela transgressão que a arte tem superado os marasmos históricos).

Regra dos Terços
Regra dos Terços

Assim, a regra da divisão em terços postula que, em composições assimétricas, ao colocar o ponto de interesse em qualquer um dos pontos de intersecção ou um importante elemento de composição sobre uma das respectivas linhas, alcançar-se-á, teoricamente, pelo menos, um agradável equilíbrio estético na composição.

Exemplo da aplicação da regra dos terços.

A forma rectangular induz calma e estabilidade e permite criar um efeito de ordem dos elementos da pintura orientados a um fim.

O Formato Quadrado

Já o formato quadrado contém toda uma outra gama de potencialidades e, do ponto de vista da composição, é mais desafiante do que o previsível rectângulo.

A forma de um quadrado é, em si mesma, equilibrada, tendo os lados todos de igual tamanho. Isso significa que os olhos tendem a percorrer a sua superfície de forma circular, contrariamente ao rectângulo, onde o olhar vai de um lado para o outro, sendo essa deriva travada pela introdução de um ponto focal.

Se na superfície quadrada o olhar volteia em círculo, então, para uma maior eficácia, os motivos ou elementos da pintura devem espelhar essa tendência de leitura induzida pelo formato. Daí que, a fim de alcançar todo o seu potencial, a sua escolha dependa, em regra, do objecto e elementos da composição da pintura a realizar. Por exemplo, o formato quadrado adequa-se particularmente bem à arte abstracta.

Em termos gráficos, o quadrado divide-se segundo uma grelha uniforme, na medida em que a diagonal do quadrado é um eixo de simetria, permitindo composições muito eficazes, se bem que nem sempre fáceis de alcançar. Deixando de haver zonas periféricas contributivas da composição, como no caso do rectângulo, a colocação dos elementos constituintes do objecto da pintura surge associada a posições de maior centralidade, tanto dos elementos positivos como do espaço negativo, conferindo um certo equilíbrio e serenidade e induzindo uma concentração visual.

Para além disso, o formato quadrado é ainda divisível segundo a proporção de ouro ou divisão de Phi, utilizando o método de divisão dos lados do quadrado por Phi, concebido por Jay Hambidge.

Jay Hambidge (1867-1924) foi um dos primeiros autores a teorizar sobre as bases técnicas do design. Para além de ser um artista, legou o seu saber e labor investigatório, entre outros, nos seus livros The elements of Dynamic Symmetry e Dynamic Symmetry in Composition as Used by the Artists (ambos os livros estão disponíveis em PDF, na secção de livros).

A divisão do quadrado segundo a regra de ouro pode ser alcançada facilmente, evitando o cálculo matemático, pelo desenho com utilização de régua e compasso. (Ver “The Elements of Dynamic Symetry”, Part II, Lesson 3, pag.87).

No entanto, a simetria pode induzir também composições apagadas e desinteressantes, pelo que é necessário criar equilíbrios e contra-equilíbrios nos elementos da pintura, por exemplo, com exploração das diagonais, que nem sempre serão gráficas, podendo ser meramente imaginárias, sendo eficazes desde que a composição as assuma implicitamente na distribuição dos seus elementos.

O retrato de Edmond Duranty, de Edgar Degas

Veja-se a seguinte explicação do quadro acima referido, de Degas, o retrato de Edmond Duranty, dada pela artista escocesa Judith I. Bridgland:

Tradicionalmente as telas eram rectangulares. Se nos deparar-mos com uma tela de um antigo mestre que seja quadrada é porque foi cortada ou aparada para este formato. Pintar num formato quadrado é uma ideia moderna. Degas usou este formato, por exemplo no seu Retrato de Edmond Duranty, presentemente na colecção Burrel, em Glasgow.

Repare onde aparecem as linhas verticais que dividem a pintura em terços. À direita e em baixo é onde a assinatura de Degas se encontra, no livro. À esquerda, mais acima, há uma linha negra, vertical, mesmo sobre o ombro de Duranty. Voltando à direita e mais acima, a secção dourada está na orla da pilha de livros ou papéis que se encontram na estante.

Analisando a pintura na horizontal, o terço superior é marcado por uma prateleira que atravessa toda a secção dourada, horizontalmente, e, no terço inferior esta linha conduz o olhar para a mão, estranhamente fechada, acentuando o poder do gesto.

O olhar é pois conduzido ao redor da composição, dum lado para o outro, para cima e para baixo, como num jogo de ténis.

O formato quadrado significa ter diagonais dramáticas. Imagine diagonais traçadas a partir de cada canto oposto.

No espaço superior direito da pintura nada mais há que estantes de livros, arrumados. Isto é metade da pintura sem nada a acontecer, nada que tenha a ver com o tema tratado. Mas, ao dedicar metade da pintura aos livros, estes providenciam informação e conhecimento sobre o retratado. Os livros parecem prestes a cair engolindo Duranty – enfatizam o seu ser académico, o seu ser livresco. Falam do seu conhecimento, mas também duma certa fragilidade, dele (Duranty) prestes a ser esmagado.

A diagonal inferior esquerda é onde se concentra toda a acção, todos os papéis espalhados e desordenados e a figura do retratado. Adivinhem agora onde se intersectam as diagonais? No gesto com dois dedos pressionando a têmpora, enfatizando a mente, e o cérebro por detrás do homem.

Este formato acrescenta muito ao nosso conhecimento sobre o retratado. Degas explora as qualidades do quadrado para sugerir a natureza e o carácter de Duranty. Esperto, eh?

Degas, Retrato de Duranty, composição.
Degas, Retrato de Duranty, composição.

Tradução livre. Pode ler aqui o artigo original.

Para interessados em maiores detalhes quanto ao formato quadrado, deixo-vos na secção de livros o PDF do seguinte texto:

James Mai; Phi Divisions of the Square: A Categorization of Composition Strategies

 

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